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Estratégia 27 de Outubro de 2026 · 9 min de leitura

Inovação aberta: modelos e aplicação na indústria

Conceito, fluxos de conhecimento e mecanismos de inovação aberta, com dados sobre a cooperação para inovar na indústria brasileira.

Alcance Innovation Consulting
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Consultoria em Estratégia, Incentivos Fiscais e Financiamento da Inovação

Inovação aberta é um processo de inovação distribuído, baseado em fluxos de conhecimento gerenciados deliberadamente através das fronteiras da organização, com mecanismos financeiros e não financeiros alinhados ao modelo de negócios da empresa. A definição é de Henry Chesbrough e Marcel Bogers, em revisão publicada em 2014 do conceito que Chesbrough apresentou em 2003, na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Na prática, a empresa que pratica inovação aberta combina conhecimento interno e externo para desenvolver produtos e processos, e usa caminhos internos e externos para levar tecnologias ao mercado. Fornecedores, clientes, universidades, startups e até concorrentes passam a fazer parte do processo de inovação, em arranjos que vão do licenciamento de patentes ao desenvolvimento conjunto.

Qual é a origem do conceito de inovação aberta?

O termo foi cunhado por Henry Chesbrough, professor da Haas School of Business, no livro Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology, publicado pela Harvard Business School Press em 2003. Em 2006, o autor definiu inovação aberta como o uso de fluxos intencionais de entrada e saída de conhecimento para acelerar a inovação interna e ampliar os mercados para o uso externo da inovação.

Em 2014, Chesbrough e Bogers revisaram a definição no livro New Frontiers in Open Innovation (Oxford University Press). A versão revisada enfatiza três elementos: o caráter distribuído do processo, a gestão deliberada dos fluxos de conhecimento e o alinhamento desses fluxos ao modelo de negócios da empresa.

Qual é a diferença entre inovação fechada e inovação aberta?

No modelo de inovação fechada, a empresa gera as próprias ideias e conduz internamente todas as etapas, do desenvolvimento à comercialização. O controle integral sobre o conhecimento é tratado como condição de vantagem competitiva, e o laboratório corporativo de pesquisa é o centro do sistema.

Chesbrough argumentou que esse modelo perdeu eficácia por um conjunto de fatores que chamou de fatores de erosão: a maior mobilidade de profissionais qualificados entre empresas, o aumento da capacidade de pesquisa das universidades, o acesso de startups a capital de risco e, em revisões posteriores, a difusão da internet e das redes digitais. Com o conhecimento distribuído entre muitos agentes, concentrar a pesquisa dentro da empresa tornou-se mais lento e mais caro.

As principais diferenças entre os dois modelos são:

  • Origem das ideias: na inovação fechada, laboratório e equipes internas; na inovação aberta, equipes internas e fontes externas.
  • Caminho até o mercado: na inovação fechada, exclusivamente pelos canais da empresa; na inovação aberta, canais próprios, licenciamento, spin-offs e parcerias.
  • Propriedade intelectual: na inovação fechada, proteção para uso exclusivo; na inovação aberta, proteção, licenciamento e compartilhamento conforme a estratégia.
  • Projetos sem uso interno: na inovação fechada, são arquivados; na inovação aberta, são licenciados, vendidos ou transferidos a terceiros.
  • Papel da P&D interna: na inovação fechada, gerar todo o conhecimento necessário; na inovação aberta, gerar conhecimento e absorver conhecimento externo.

Quais são os tipos de inovação aberta?

A classificação mais usada na literatura distingue três fluxos de conhecimento, propostos por Oliver Gassmann e Ellen Enkel em 2004, a partir de um estudo com 124 empresas:

  • De fora para dentro (outside-in): a empresa incorpora conhecimento e tecnologia de fornecedores, clientes, universidades, startups e outras fontes externas para acelerar a própria inovação.
  • De dentro para fora (inside-out): a empresa leva ao mercado ideias e tecnologias internas que não usa diretamente, por meio de licenciamento, venda de propriedade intelectual ou criação de novas empresas.
  • Acoplado (coupled): a empresa combina os dois fluxos em alianças com parceiros complementares, desenvolvendo e comercializando inovações em conjunto. A reciprocidade entre os parceiros é condição para o funcionamento desse arranjo.

Linus Dahlander e David Gann propuseram, em 2010, uma segunda classificação, que cruza a direção do fluxo com a existência de pagamento:

  • Aquisição (entrada, com transação financeira): compra ou licenciamento de tecnologias e propriedade intelectual.
  • Prospecção (entrada, sem transação financeira): captação de ideias e conhecimento externo sem pagamento direto.
  • Venda (saída, com transação financeira): licenciamento ou venda de tecnologias próprias.
  • Revelação (saída, sem transação financeira): compartilhamento de conhecimento interno sem retorno financeiro direto.

Quais mecanismos as empresas usam para praticar inovação aberta?

Os mecanismos variam conforme o fluxo de conhecimento e o grau de compromisso entre as partes:

  1. Pesquisa cooperativa com universidades e institutos de pesquisa: projetos conjuntos, contratação de serviços tecnológicos e uso de laboratórios externos. No Brasil, as parcerias entre empresas e instituições científicas e tecnológicas são disciplinadas pela Lei nº 10.973/2004, a Lei de Inovação, alterada pela Lei nº 13.243/2016.
  2. Licenciamento de tecnologia: entrada ou saída de patentes, know-how e software mediante contrato.
  3. Relacionamento com startups: programas de aceleração, provas de conceito pagas, contratação como fornecedor e investimento por meio de corporate venture capital.
  4. Desafios abertos e plataformas de ideias: chamadas públicas para que pesquisadores, empresas e indivíduos proponham soluções para problemas técnicos definidos pela empresa.
  5. Codesenvolvimento com fornecedores e clientes: integração de parceiros da cadeia de valor desde as fases iniciais do projeto.
  6. Consórcios e joint ventures: estruturas formais para desenvolvimento conjunto de tecnologias de interesse comum, inclusive entre concorrentes em etapas pré-competitivas.
  7. Spin-offs e venda de tecnologias: criação de empresas ou transferência de ativos para explorar tecnologias sem aplicação no negócio principal.

Um dos casos mais citados é o programa Connect + Develop, da Procter & Gamble. Segundo artigo publicado na Harvard Business Review em 2006 por executivos da empresa, a companhia lançou em dois anos mais de cem produtos com alguma etapa de desenvolvimento originada fora da empresa, e a produtividade de sua P&D aumentou cerca de 60% no período.

Como a inovação aberta se aplica à indústria?

Na indústria, a inovação aberta é usada principalmente para acessar competências técnicas que a empresa não tem internamente, reduzir o tempo de desenvolvimento e compartilhar o risco de projetos de maior incerteza. Os arranjos mais frequentes envolvem fornecedores de equipamentos e insumos, que detêm conhecimento sobre materiais e processos, e institutos de pesquisa, que oferecem infraestrutura laboratorial e competência científica.

Os dados da PINTEC Semestral 2024, do IBGE, que cobre indústrias extrativas e de transformação com 100 ou mais pessoas ocupadas, mostram como as empresas brasileiras cooperam para inovar:

  • Cerca de 32% das empresas inovadoras mantiveram cooperação ativa com outras organizações em 2024, contra cerca de 42% em 2021.
  • Os parceiros mais frequentes foram fornecedores (27,1%), clientes ou consumidores (23,1%) e consultorias (21,5%).
  • A infraestrutura de ciência, tecnologia e inovação, que inclui universidades e institutos de pesquisa, foi parceira de 18,7% das empresas, e as startups, de 7,7%.
  • Dificuldades em estabelecer parcerias foram apontadas como obstáculo à inovação por 35,7% das empresas inovadoras.

O perfil indica que a cooperação na indústria brasileira se concentra na cadeia de valor imediata, com participação menor de instituições de pesquisa e de startups.

Quais são os riscos e limites da inovação aberta?

A abertura tem custos e um ponto de retorno decrescente. O estudo de Keld Laursen e Ammon Salter (2006), com 2.707 indústrias do Reino Unido, mostrou que o número de fontes externas de conhecimento usadas pela empresa melhora o desempenho em inovação até certo ponto; além dele, o esforço de busca passa a reduzir os resultados, fenômeno que os autores chamaram de excesso de busca.

Os principais riscos de gestão são:

  • Propriedade intelectual: a titularidade dos resultados, o direito de uso e a confidencialidade precisam ser definidos em contrato antes do início do projeto.
  • Capacidade de absorção: a empresa só aproveita conhecimento externo se tiver equipe técnica capaz de avaliá-lo, adaptá-lo e integrá-lo aos próprios processos.
  • Custo de coordenação: parcerias exigem gestão de cronogramas, interfaces técnicas e expectativas diferentes entre as partes, especialmente entre empresas e universidades.
  • Dependência de parceiros: concentrar competências críticas em terceiros pode reduzir a capacidade da empresa de controlar a evolução da própria tecnologia.

Como estruturar a inovação aberta em uma empresa?

A estruturação costuma seguir cinco decisões:

  1. Definir os desafios tecnológicos prioritários, ligados à estratégia da empresa, que justificam buscar conhecimento externo.
  2. Escolher o fluxo e o mecanismo adequados a cada desafio: pesquisa cooperativa para problemas de maior incerteza científica, startups para soluções digitais de rápida validação, fornecedores para mudanças de materiais e processos.
  3. Estabelecer regras de propriedade intelectual e confidencialidade padronizadas para cada tipo de parceria.
  4. Designar responsáveis internos pela prospecção, pela gestão dos contratos e pela transferência dos resultados para as áreas de negócio.
  5. Medir resultados com indicadores como número de parcerias ativas, projetos concluídos, tecnologias incorporadas e receita de produtos com participação externa.

Perguntas frequentes

O que é inovação aberta em poucas palavras?

É o modelo em que a empresa combina conhecimento interno e externo para inovar e usa caminhos internos e externos para levar tecnologias ao mercado. O conceito foi proposto por Henry Chesbrough em 2003.

Quais são os três tipos de inovação aberta?

De fora para dentro (outside-in), quando a empresa incorpora conhecimento externo; de dentro para fora (inside-out), quando leva tecnologias internas para uso de terceiros; e acoplado (coupled), quando combina os dois fluxos em parcerias de desenvolvimento conjunto. A classificação é de Gassmann e Enkel (2004).

Qual é a diferença entre inovação aberta e terceirização de P&D?

Na terceirização, a empresa contrata a execução de uma tarefa definida e recebe o resultado. Na inovação aberta, o conhecimento circula nos dois sentidos, a empresa mantém capacidade técnica para absorvê-lo e as parcerias fazem parte da estratégia de inovação.

Inovação aberta significa abrir mão da propriedade intelectual?

Significa gerir a propriedade intelectual de forma estratégica. A empresa pode proteger, licenciar, vender ou compartilhar tecnologias conforme o valor de cada uma para o seu modelo de negócios, e define essas regras em contrato com cada parceiro.

Pequenas e médias empresas podem praticar inovação aberta?

Podem e frequentemente dependem dela, porque têm estruturas internas de pesquisa menores. Os arranjos mais acessíveis são a cooperação com universidades e institutos de pesquisa, o codesenvolvimento com fornecedores e a contratação de serviços tecnológicos.

Quantas indústrias brasileiras cooperam para inovar?

Segundo a PINTEC Semestral 2024 do IBGE, cerca de 32% das indústrias inovadoras com 100 ou mais pessoas ocupadas mantiveram cooperação ativa com outras organizações em 2024. Os parceiros mais frequentes foram fornecedores, clientes e consultorias.

Fontes

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